worldwhitewall home - cidades do amanha.
pitanga do amparo architecture, art, publishing house, doctoral research, interiors, biotecture, architectural theories, russian art, o grande experimento, suprematism, constructivism, arquitetura construtivista and worldwhitewall editora.

english

french

italian

portuguese

email

PETER HALL - Cidades do Amanhã - Uma história intelectual do planejamento e do projeto urbanos no século XX, São Paulo, Perspectiva,1995.
AUH.819 - História Social da Arquitetura e do Urbanismo Modernos
1995 segundo semestre

Prof. resp.: Dr. Paulo J. V. Bruna
Súmula: Dr. L. A. Pitanga do Amparo

TÍTULOS & SUB-TÍTULOS DOS CAPÍTULOS

1. Cidades da Imaginação. Visões Alternativas da Boa Cidade (1880-1987)
AS RAÍZES ANARQUISTAS DO MOVIMENTO URBANÍSTICO
AVISO : PEDRAS NO CAMINHO
GUIA PARA O LABIRINTO

2. A Cidade da Noite Apavorante. Reações à Cidade Encortiçada do Século XIX: Londres, Paris, Berlim, Nova York (1880-1900)
O GRITO AMARGO
A COMISSÃO REAL BRITÂNICA DE 1885
DEPRESSÃO,VIOLÊNCIA E AMEAÇA DE INSURREIÇÃO
O LEVANTAMENTO BOOTH: O PROBLEMA QUANTIFICADO
A CIDADE DO CORTIÇO NA EUROPA
NOVA YORK: O TUMOR NAS HABITAÇÕES COLETIVAS

UM PROBLEMA INTERNACIONAL
3. A Cidade do Desvio Variegado. O Subúrbio do Transporte de Massa: Londres, Paris, Berlim, Nova York (1900-1940)
O CONSELHO DO CONDADO DE LONDRES COMEÇA A CONSTRUIR
OS PRIMEIROS ESQUEMAS DE PLANEJAMENTO URBANO
NOVA YORK DESCOBRE O ZONEAMENTO
LONDRES: O METRÔ ACARRETA O ESTIRAMENTO SUBURBANO
O LEGADO DE TUDOR WALTERS
A CONSTRUÇÃO DE "SUBURBIA"
A VINGANÇA DOS ARQUITETOS

4. A Cidade no Jardim. A Solução Cidade-Jardim: Londres, Paris, Berlim, Nova York (1900-1940)
AS FONTES DAS IDÉIAS HOWARDIANAS
A CIDADE-JARDIM E A CIDADE SOCIAL
LETCHWORTH E HAMPSTEAD: UNWIN E PARKER
O MOVIMENTO CIDADE-JARDIM ENTRE AS DUAS GUERRAS
A CIDADE-JARDIM NA EUROPA
CIDADES-JARDIM PARA A AMÉRICA
NOVAS CIDADES PARA A INGLATERRA: O ESTADO ASSUME O CONTROLE

5. A Cidade na Região. Nasce o Planejamento Regional: Edimburgo, Nova York, Londres (1900-1940)
GEDDES E A TRADIÇÃO ANARQUISTA
A REGIONAL PLANNING ASSOCIATION OF AMERICA
RPAA VERSUS PLANO REGIONAL DE NOVA YORK
O PLANEJAMENTO NEW DEAL

A VISÃO FAZ-SE REALIDADE: LONDRES

6. A Cidade dos Monumentos. O Movimento City Beautiful: Chicago, Nova Delhi, Berlim, Moscou (1900-1945 )
BURNHAM E O MOVIMENTO CITY BEAUTIFUL NA AMÉRICA
O CITY BEAUTIFUL SOB O RAJ BRITÂNICO
CAMBERRA: O EXCEPCIONAL EM CITY BEAUTIFUL
O CITY BEAUTIFUL E OS GRANDES DITADORES

7. A Cidade das Torres. A Radiosa Cidade Corbusiana: Paris, Chandigar, Brasília, Londres, St. Louis (1920-1970)
A CIDADE IDEAL CORBUSIANA
O PLANEJAMENTO DE CHANDIGAR
BRASÍLIA: A CIDADE CORBUSIANA

OS CORBUSIANOS CHEGAM À INGLATERRA
A GRANDE RECONSTRUÇÃO
A REMODELAÇÃO URBANA NOS EUA
O CONTRA-ATAQUE: JACOBS E NEWMAN
A IMPLOSÃO DE PRUITT-IGOE
O LEGADO CORBUSIANO

8. A Cidade da Suada Eqüidade. A Comunidade Autônoma: Edimburgo, Indore, Lima, Berkeley, Macclesfield (1890-1987)
GEDDES VAI À ÍNDIA
ARCÁDIA PARA TODOS EM PEACEHAVEN

TURNER VAI AO PERU
A CHINA VAI PARA AS MONTANHAS
A AUTONOMIA NO PRIMEIRO MUNDO: DE WRIGHT A ALEXANDER
A GRANDE GUERRA CONTRA A REMODELAÇÃO URBANA
A GUERRA CHEGA À EUROPA
A ARQUITETURA COMUNITÁRIA CHEGA À INGLATERRA

9. A Cidade à Beira da Auto-estrada. O Subúrbio do Automóvel: Long Island, Wisconsin, Los Angeles, Paris (1920-1987)
CUMPRE-SE UMA PROFECIA DE WELLS
FRANK LLOYD WRIGHT E OS DESURBANISTAS SOVIÉTICOS
"OS SUBÚRBIOS ESTÃO CHEGANDO!"
SUBÚRBIA: O GRANDE DEBATE
O CONTROLE DO CRESCIMENTO SUBURBANO NA EUROPA
ESQUADRANDO O CÍRCULO: O PLANEJAMENTO DA METRÓPOLE EUROPÉIA
A GRANDE REVOLTA CONTRA A VIA EXPRESSA E O QUE VEIO DEPOIS

10. A Cidade da Teoria. Planejamento e Academia: Filadélfia, Manchester, Califórnia, Paris (1955-1987)
A PRÉ-HISTÓRIA DO PLANEJAMENTO URBANO ACADÊMICO: 1930-1955
A REVOLUÇÃO DOS SISTEMAS
A BUSCA DE UM NOVO PARADIGMA
A SUPREMACIA MARXISTA
O MUNDO FORA DA TORRE: A PRÁTICA FOGE DA TEORIA

11. A Cidade do Empreendimento. Virando o Planejamento de Ponta-Cabeça: Baltimore, Hong Kong, Londres (1975-1987)
A ROUSIFICAÇÃO DA AMÉRICA
A BATALHA EM DEFESA DAS DOCKLANDS
A ZONA DO EMPREENDIMENTO
ALAVANCANDO O SETOR PRIVADO
ATAQUE AO PLANEJAMENTO

12. A Cidade da Permanente Ralé. O Cortiço Resiste: Chicago, St. Louis, Londres (1920-1987)
CHICAGO DESCOBRE A RALÉ
OS SOCIÓLOGOS INVADEM O GUETO
MOYNIHAN ENTRA NA BRIGA
O IMPACTO DOS LEVANTES DE GUETO
DEPOIS DOS TUMULTOS
PÓS-ESCRITO: A RALÉ NA GRÃ-BRETANHA


Click to the top
Cliquer pour le haut
Clicate per andare all'alto
Clique para o topo


PETER HALL - CIDADES DO AMANHA (SUMULA)

1. Cidades da Imaginação. Visões Alternativas da Boa Cidade (1880-1987)

(...) Este livro é feito sobre eles, suas visões, e o efeito que essas visões tiveram no trabalho diário de construir cidades: Howard, Unwin, Parker, Osborn; Geddes, Munford, Stein, MacKaye, Chase; Burnham, Lutyens; LeCorbusier; Wells, Webber; Wright, Turner, Alexander; Friedmann, Castells, Harvey. Resumamos aqui o argumento central: a maioria era de visionários, mas as visões de muitos quedaram por longo tempo estéreis, porque ainda não era chegada a hora.

AS RAÍZES ANARQUISTAS DO MOVIMENTO URBANÍSTICO

(...) É realmente surpreendente o fato de que muitas das primitivas visões do movimento urbanístico tenham como origem o movimento anarquista que floresceu nas últimas décadas do século XIX e nos primeiros anos do século XX. Isso vale para Howard, para Geddes e para a Regional Planning Association of America, tanto quanto para os seus muitos derivados no continente europeu.
(Não valeu, contudo, e quanto a isso não há qualquer dúvida, para Le Corbusier, que era um centralista autoritário, nem para a maioria dos componentes do Movimento City Beautiful, fiéis serviçais do capitalismo financeiro ou de ditadores totalitários.)

As raízes anarquistas do planejamento têm sido dissecadas a contento por numerosos autores, e em especial por Colin Ward na Grã-Bretanha, e por Clyde Weaver nos Estados Unidos.

AVISO : PEDRAS NO CAMINHO

(...) Uma escola agora poderosa, e mesmo dominante, afirma que o planejamento, em todas as suas manifestações, é uma resposta do sistema capitalista - e particulamente do Estado capitalista - ao problema da organização da produção e, em especial, ao dilema das crises constantes. (...) é o motor tecnológico-econômico que dirige o sistema socioeconômico e, através dele, as respostas da válvula de segurança política.

Quem quer que pretenda escrever história, seja lá em que campo for - e especialmente neste, onde tantas sofisticadas inteligências marxistas têm atuado -, necessita tomar posição no tocante a essas questões parateológicas de interpretação. É o que faço agora: os atores da história têm seu desempenho determinado pelo mundo onde eles mesmos se acham inseridos e, particularmente, pelos problemas com os quais nesse mundo se defrontam.

Na prática, o planejamento de cidades funde-se, quase imperceptivelmente, com os problemas das cidades, e estes, por sua vez, com toda a vida socioeconômico -político -cultural da época; (...) limite estabelecido (...) contar de tudo apenas o necessário que explique o fenômeno do planejamento urbano; e fixa-lo firmemente, à maneira marxista, em sua base socioeconômica (...) significado da expressão "planejamento urbano". Quase todos, a partir de Patrick Geddes, concordariam que o referido conceito deveria incluir o planejamento da região que circunda a cidade; muitos, novamente encabeçados por Geddes e a Regional Planning Association of America, ampliá-lo-iam, fazendo abarcar a região natural, ou seja, uma bacia fluvial ou uma unidade geográfica com cultura regional própria. (...) também as relações entre as regiões: por exemplo, relação entre a megalópole em expansão e o despovoamento da zona rural.

GUIA PARA O LABIRINTO

O livro afirma, primeiro (...) O planejamento urbano no século XX, como movimento intelectual e profissional, representa essencialmente uma reação contra os males produzidos pela cidade do século XIX.

Em segundo lugar, (...) no planejamento urbano do séculoXX não há mais que umas poucas idéias-chave, e que estas só fazem reecoar, reciclar-se, reconectar-se. Cada uma, por seu turno, origina-se de um indivíduo-chave ou, quando muito, de um pequeno punhado de indivíduos: os verdadeiros pais fundadores do moderno planejamento de cidades.

* O Capítulo 2 discute sobre as origens oitocentistas do planejamento urbano do século XX. (...) Londres de meados de 1880, sociedade urbana torturada por tensões sociais e fermentação política enormes.

* O Capítulo 3 (...) o processo da suburbanização em massa.

* A primeira e sem dúvida mais importante resposta à cidade vitoriana foi o conceito da cidade-jardim de Ebenezer Howard, cavalheiro amador de grande visão e igual persistência, que o concebeu entre 1880 e 1898. (...) no Capítulo 4 (...) Algumas dessas variantes, bem como a visão howardiana mais pura, foram executadas por seus seguidores, (...) Raymond Unwin, Barry Parker e Frederic Osborn na Grã-Bretanha; Henri Sellier na França; Ernst May e Martin Wagner na Alemanha; Clarence Stein e Henry Wright nos Estados Unidos. Outras foram concebidas independentemente, como a visão da cidade linear, do espanhol Arturo Soria, ou a descentralizada Broadacre City de Frank Lloyd Wright.
pág.15 (clique para voltar aos títulos)
* A segunda resposta (...) é a visão da cidade regional, (...) vasto programa de planejamento regional, dentro do qual cada parte sub-regional desenvolver-se-ia harmoniosamente com base nos seus próprios recursos naturais, bem como num total respeito aos princípios de equilíbrio ecológico e pronta substituição. As cidades, nesse esquema, ficam subordinadas à região: tanto as velhas metrópoles quanto as novas cidades só crescerão como partes necessárias do esquema regional. Logo após 1900, essa visão foi desenvolvida pelo biólogo escocês Patrick Geddes, e interpretada durante os anos 20 pelos membros fundadores da Regional Planning Association of America: Lewis Mumford, Clarence Stein e Henry Wright, já citados, mais Stuart Chase e Benton MacKaye (...) no Capítulo 5.

* A terceira linha coloca-se em total contraste, com as duas primeiras: é a tradição monumental do planejamento urbano, que recua até Vitrúvio, se não mais, ressurgindo poderosamente na metade do século XIX, pelas mãos de mestres urbanistas como Georges-Eugène Haussmann em Paris ou Ildefonso Cerda em Barcelona. No século XX, conforme mostramos no Capítulo 6, reapareceu em lugares bizarros e descombinados: serva do orgulho cívico aliado ao promocionismo comercial na América, expressão da majestade imperial na Índia e na África britânicas, e da independência recém-conquistada na Austrália, agente da megalomania totalitarista na Alemanha de Hitler e na Rússia de Stalin, na Itália de Mussolini e na Espanha de Franco.

* A solução de Le Corbusier ,segundo a qual um mestre urbanista todo-poderoso demoliria por completo a cidade existente, substituindo-a por outra feita de altas torres erguidas no meio de um parque, é discutida no Capítulo 7.

* (...) as formas construídas de cidades deveriam provir das mãos de seus próprios cidadãos. (...) Encontramos essa noção poderosamente presente no pensamento anarquista que tanto contribuiu para a visão howardiana da cidade-jardim na década final do século XIX, e em particular para as idéias geddesianas de recuperação urbana parcelada, entre 1885 e 1920. Ingrediente básico e poderoso do pensamento de Frank Lloyd Wright nos anos 30, e em particular de sua Broadacre City, (...) ideologia urbanística nas cidades do Terceiro Mundo, através do trabalho de John Turner - também ele saído diretamente do pensamento anarquista - na América Latina dos anos 60. (...) elemento crucial na evolução intelectual do teórico de arquitetura anglo-norte-americano Christopher Alexander, nessa década e na seguinte. (...)auge com o movimento de projeto comunitário que, entre os anos 70 e 80, invadiu os Estados Unidos e sobretudo a Grã-Bretanha, (...)tema central do Capítulo 8.

* (...) visão de uma cidade dotada de infinita mobilidade graças aos progressos obtidos na tecnologia dos meios de transporte, em especial o automóvel, (...) no Capítulo 9. Corrente que flui da admirável predição feita na virada do século por H.G.Wells sobre a suburbanização maciça do sul da Inglaterra, (...) projetos viários, (...) para Los Angeles em 1939 (...) a descrição de Melvin Webber sobre o domínio urbano do não-lugar, em 1963-1964. (...) os desurbanistas soviéticos dos anos 20, (...) o conceito de Soria sobre a cidade linear.

* (...) a partir dos anos 50, o planejamento (...) foi ele progressivamente adquirindo um corpo mais abstrato e mais formal de teoria pura. Parte dessa teoria, é teoria sobre planejamento: conhecimento das técnicas e metodologias práticas, (...) teoria do planejamento, é diferente: sob essa rubrica tentam os planejadores compreender a verdadeira natureza da atividade que exercem, incluídas as razões que lhe justificam a existência. (..) Capítulo 10

* (...) em meio século ou mais de prática burocrática, o planejamento degenerou numa máquina reguladora negativa, projetada para sufocar toda e qualquer iniciativa, toda e qualquer capacidade criadora. (...) o pensamento de esquerda retornou às raízes anarquistas, arbitrárias, pequena-escala, subversoras do planejamento; os redutos do pensamento de direita passaram a reclamar um estilo empresarial de desenvolvimento. Daí as mudanças, em vários países, para regimes de planejamento simplificado (...) Durante os anos 80, tal convicção, (..) emergiu em países como a Grã-Bretanha. (...) Capítulo 11.

* (...) meados dos anos 60 em diante: ao invés de melhorarem, certas partes de certas cidades - e sem sombra de dúvida, certas pessoas, estavam piorando, (...) Capítulo 12.

* Este livro apresenta, portanto, uma simetria incomum e inquietante: após um século de debates sobre como planejar a cidade, (...) Os teóricos retrocederam dràsticamente às origens anarquistas do planejamento; esta mesma cidade é vista de novo como um lugar de decadência, pobreza, mal-estar social, intranquilidade civil e possivelmente até mesmo de insurreição.

2. A Cidade da Noite Apavorante. Reações à Cidade Encortiçada do Século XIX: Londres, Paris, Berlim, Nova York (1880-1900)

(...) W. T. Stead, famoso pelas denúncias sensacionalistas que publicava no vespertino Pall Mall Gazette, do qual era redator-chefe, num editorial de outubro de 1883, comentava que "o austero florentino poderia ter acrescentado vários outros horrores à sua visão do inferno com uma breve permanência num cortiço londrino". (...) pôs ele as mãos num panfleto recém-publicado por um pastor congregacionalista, Andrew Mearns. Inteligentemente promovido por Stead, The Bitter Cry of Outcast London (O Grito Amargo da Londres Marginalizada) fez sensação. (...) levando diretamente à nomeação da Comissão Real para Moradia das Classes
pág.16 (clique para voltar aos títulos)
Trabalhadoras, em 1884. Demonstrou, assim, ser um dos mais influentes escritos em toda a história da reforma social britânica.

O GRITO AMARGO

(...) "Cada quarto, nessas podres e fétidas moradias coletivas, aloja uma família, muitas vezes duas. Um fiscal sanitário registra em seu relatório haver encontrado, num porão, o pai, a mãe, três crianças e quatro porcos! Noutro, um missionário encontrou um homem com varíola, a mulher na convalescença de seu oitavo parto, e as crianças zanzando de um lado para outro, seminuas e cobertas de imundície. Aqui estão sete pessoas morando numa cozinha no subsolo, e ali mesmo, morta, jaz uma criancinha. Em outro local estão uma pobre viúva, seus três filhos e o cadáver de uma criança morta há treze dias. Pouco antes, o marido, um cocheiro, se havia suicidado" (...)

"Esses coitados precisam viver em algum lugar. Não podem dar-se ao luxo de ir de trem ou de bonde para os subúrbios, e como, com seus pobres e famintos corpos emaciados, podemos deles esperar - além de trabalharem doze horas ou mais, por um xelim ou menos - que caminhem três ou quatro milhas na ida e depois outras tantas na volta ?"

A COMISSÃO REAL BRITÂNICA DE 1885

(...) Logo após, acontecia a nomeação de uma Comissão Real de peso, presidida por Sir Charles Wentworth Dilke, o Príncipe de Gales, Lorde Salisbury e o Cardeal Manning. (...)

Ficou plenamente evidenciado que o normal, em Londres, era uma família ocupar um quarto, e que essa família podia ser até mesmo de oito pessoas. (...) E como a porta da frente raramente era fechada, à noite as escadas e os corredores povoavam-se do que a gíria britânica chamava ironicamente de appy dossers: ou sem-teto.

(...) Nos arrabaldes de Londres, a histórica Lei da Saúde Pública, de 1875, havia fornecido a base para um sistema de governo local mais efetivo, mas na capital ainda vigorava um modelo arcaico e caótico.

(...) Lei Torrens (Lei para Moradias de Artesãos e Operários, de 1868), que permitia às autoridades locais construirem novas moradias para as classes trabalhadoras, e a Lei Cross (Lei para a Melhoria das Moradias de Artesãos e Operários, de 1875), que lhes permitia demolir vastas áreas ocupadas por habitações inadequadas e realojar seus moradores, tendo ambas permanecido por largo tempo letra morta. (...) deveriam as autoridades locais estar autorizadas a pedir dinheiro emprestado ao tesouro pela taxa de juros mais baixa possível, (...) A Lei para a Moradia das Classes Trabalhadoras de 1885, implementou tais recomendações. Também ampliou a antiga Lei para Casas de Cômodos, de 1851, de autoria de Lorde Shaftesbury, (...) O problema, todavia, foi que as autoridades locais não moveram palha.

DEPRESSÃO,VIOLÊNCIA E AMEAÇA DE INSURREIÇÃO

A Lei Revisional de 1884 estendera o direito de voto a uma grande parte da classe trabalhadora masculina urbana. (...) As questões do momento, escreveu mais tarde Beatrice Webb, eram "de um lado, o significado da pobreza das massas humanas; e, do outro, a praticabilidade e a desejabilidade de uma democracia política e industrial que surgisse como uma compensação, talvez como uma forma de reparação, para as queixas da maioria do povo". Mas essas discussões eram para a intelligentsia: "Na verdade, nenhum setor das classes trabalhadoras destilava...‘o veneno do socialismo’...Nascidos e criados dentro da carência crônica e da enfermidade debilitadora, os alienígenas dos cortiços haviam afundado numa embrutecida apatia..."

(...) Os fabianos, apóstolos do gradualismo, aos quais Beatrice Webb aderiu prontamente, produziram um manifesto de primeira hora, onde se percebia a marca de George Bernard Shaw:

"Que o governo estabelecido não tenha o direito de denominar-se Estado, tanto quanto a fumaça de Londres não tem o direito de denominar-se ar."

"Que é preferível enfrentarmos uma guerra civil do que um novo século de sofrimentos como foi o presente"

H. M. Hyndman, líder da Social Democratic Foundation, escrevia, no mesmo ano, que "mesmo entre homens e mulheres inúteis, que a si próprios se apelidam de ‘sociedade’, correntes internas de mal-estar podem ser detectadas. ‘Revolução’, a palavra temível, é às vezes dita em voz alta por brincadeira, e mais amiúde cochichada com toda a seriedade" (..) "livros, panfletos e volantes metem-se por oficinas e sótãos, que discutem o problema em toda a sua extensão e profundidade. Teorias extraídas da grande obra sobre o Capital, do Dr. Karl Marx, ou do programa dos socialdemocratas da Alemanha e dos coletivistas da França, estão sendo difundidas de forma barata e legível" (...) "Entre as mais feias excrescências da sociedade moderna acham-se as numerosas gangues de rufiões organizados...que se pavoneiam por nossas grandes cidades e, muitas vezes, não contentes de espancarem-se mutuamente, molestam o pacífico transeunte" (...) a mais famosa delas, a "High Rip Gang" (...)

O verdadeiro terror que dominava a classe média, apesar do ceticismo de Beatrice Webb, era de que a classe trabalhadora se sublevasse.

O LEVANTAMENTO BOOTH: O PROBLEMA QUANTIFICADO

pág.17 (clique para voltar aos títulos)

Charles Booth, proprietário de navios em Liverpool, inspirado em The Bitter Cry, meteu-se pelo East End de Londres a fim de embarcar naquele que seria o primeiro levantamento social moderno. Auxiliado por um exército de assistentes jovens e capazes, entre os quais estava Beatrice Potter, mais tarde Webb, apresentou ele seus primeiros resultados diante da Royal Statistical Society em maio de 1887 (...)

Um grupo que leu com particular interesse esses resultados iniciais apresentados por Booth foi a Fabian Society, onde o trabalho paciente de desencavar fatos, desenvolvido por Sidney Webb, casava-se agora com a pena ácida de Bernard Shaw. A obra fabiana, clássica e definitiva, Facts for Socialists, de 1887, foi repetidamente reimpressa, dois anos depois, surgia, em continuação, Facts for Londoners.

(...) obedecendo à recomendação da Comissão Real para a Moradia das Classes Trabalhadoras, a lei do governo local de 1888 transferira as responsabilidades da Junta Metropolitana de Trabalho para um novo grupo democraticamente eleito, o London County Council (Conselho do Condado de Londres).

A CIDADE DO CORTIÇO NA EUROPA

Berlim, onde a população estava crescendo a uma velocidade quase igual à norte-americana era, como Paris, populacionalmente saturada; seu crescimento foi acomodado em "casernas de aluguel" de cinco pavimentos, as Mietskaserne (...) Esse tipo de urbanização, iniciado, ao que parece, por Frederico, o Grande, para alojar famílias de soldados, generalizou-se em decorrência do plano urbano do burgomestre Jakob Hobrecht, em 1858; aparentemente projetado para promover a integração social, com ricos e pobres instalados no mesmo bloco de edifícios, ele simplesmente produziu uma saturação populacional lastimável, (...) conforme cálculos do pioneiro do planejamento britânico T. C. Horsfall em 1903, (...)

Patrick Abercrombie, o planejador britânico, ao visitar Berlim pouco antes da Primeira Grande Guerra, ficou intrigado com o contraste que essa cidade oferecia em relação a Londres: (...) tanto em Londres como em Berlim, aumentava o temor de que a população urbana fosse, de certo modo, biologicamente incapaz. (...) na Primeira Grande Guerra, a Comissão Verney reafirmava que a compleição física do segmento urbano da Grã-Bretanha tendia a deteriorar-se, mantendo-se ùnicamente graças ao recrutamento feito no interior. (...) se deduziu que a população urbana iria falhar em sua auto-reprodução, argumento utilizado primeiramente por Georg Hansen em seu livro Die drei Bevölkerungsstufen (As Três Etapas do Crescimento Populacional), de 1890, e desenvolvido por Oswald Spengler no clássico The Decline of the West (A Decadência do Ocidente), de 1918 (...)

Charles Masterman, parlamentar liberal, mostrou em seu livro, The Heart of the Empire (1901), que o londrino era um tipo instável (...) na Alemanha de 1920, die Angst vor der Stadt (o medo à cidade) era medo da decomposição social.

NOVA YORK: O TUMOR NAS HABITAÇÕES COLETIVAS

Andrew Lees em seu monumental estudo sobre comportamentos urbanos do século XIX, medo e aversão à cidade eram um fenômeno tipicamente anglo-germânico (...)

Os intelectuais foram unânimes. Henry James escrevia que "Nova York era a um tempo esquálida e dourada, e mais valia evitá-la que desfrutá-la" (...) Josiah Strong, que em 1885 (...) Alan Forman, no American Magazine de 1885, escrevia (...) Em 1892, o New York Times queixava-se da invasão dos "indigentes físicos, morais e mentais" da Europa, (...) o American Journal of Sociology, em 1897, "grandes cidades são grandes centros de corrupção social e...degeneração". F. J. Kingsbury, em 1895, que (...)

O homem que deu forma a tais sentimentos foi Jacob Riis: um dinamarquês de origem rural que emigrou para Nova York em 1870, com 21 anos de idade, tornando-se jornalista sete anos depois. O seu How the Other Half Lives (Como Vive a Outra Metade), publicado em 1890, despertou uma sensação sinistramente semelhante ao impacto provocado em Londres por The Bitter Cry, sete anos antes. (...)

Mas agora os prédios de habitação coletiva espalhavam-se por toda a parte, (...) como os de Berlim, um projeto de moradia pretensamente aperfeiçoado: desenvolvido num concurso público de 1879, o famigerado conjunto em forma de haltere, o dumb-bell, (...) Duas sucessivas Comissões para Prédios de Habitação Coletiva, em 1894 e 1900, confirmaram as péssimas condições de vida oferecidas por esses alojamentos; a segunda foi seguida de uma legislação, em 1901, "o mais significativo ato regulamentador jamais ocorrido na história da moradia na América", que punha fora da lei a construção de novos dumb-bells, e obrigava a que se modificassem os existentes. Seu secretário, Lawrence Veiller, (...) Dentro de sua visão pessoal do problema, muitas das questões urbanas derivavam do fato de ter ocorrido uma transição excessivamente rápida do camponês europeu para o urbanita norte-americano, o que ele se proporia remediar via um maciço reassentamento rural. (...) na cidade, uma ação drástica (...) era provê-los de mais luz, mais ar, novos banheiros e de uma proteção mais eficiente contra incêndios.

"Os distritos de Nova York ocupados por prédios de habitação coletiva (...) São focos de doença, pobreza, vício e crime, onde o que surpreende não é que algumas crianças cresçam para serem ladrões, bêbados ou prostitutas, mas que tantas consigam tornar-se adultos decentes e responsáveis"
pág.18 (clique para voltar aos títulos)
A Comissão estava de pleno acordo com a Comissão Real Britânica de 1885. Mas no tocante às soluções, Veiller e seus companheiros divergiram veementemente dos caminhos tomados pelos ingleses e, por conseguinte, dos europeus. (...) Além do mais, sentiam eles que a moradia fornecida pelo município levaria a uma pesada burocracia, ao apadrinhamento político, ao desencorajamento do capital privado. (...)

De qualquer modo, em comparação com a Europa, a causa da habitação como dever do estado sofria com isso um retrocesso de décadas, como, aliás, iria lamentar, nos anos 30, Catherine Bauer.

As razões intrigaram os historiadores. Pois elas implicavam, nos EUA, um divórcio entre as artes nascentes do planejamento habitacional e do planejamento urbano. O planejamento norte-americano, nos seus primórdios, como virá à tona no Capítulo 6, fora dominado pelo Movimento City Beautiful, e isso significava planejar sem propósitos sociais - ou até com propósitos retrógrados: o movimento zoneador, era, no mínimo, socialmente excluidor, em seu intuito e impacto. (...)

Segundo Peter Marcuse, o planejamento passou a depender ùnicamente da "aliança dos interesses imobiliários com os eleitores de renda média e casa própria", que não tinham qualquer interesse em programas para realojamento do pobre, num nítido contraste com a Europa, onde uma forte consciência operária aliou-se a uma burocracia intervencionista.

O que surgiu, em contrapartida, foi algo singular e inconfundivelmente norte-americano: um movimento voluntário dedicado a salvar o imigrante (especialmente a imigrante) de seus próprios erros e excessos, socializando-o dentro dos padrões de vida norte-americanos, e adaptando-o à vida urbana.

(...) Jane Addams, em sua primeira visita à Inglaterra, ficara impressionada ao ler The Bitter Cry of Outcast London. Numa segunda viagem, em junho de 1888, aconteceu-lhe ouvir, o cônego Samuel Barnett pregar a instalação de um centro de assistência social cristã em St. Jude, no Leste londrino, "a pior paróquia de Londres". No ano seguinte, tomava a si o encargo de estabelecer um centro similar em Chicago. Localizada no meio de quatro comunidades de imigrantes pobres - italianos, alemães, judeus e ciganos - Hull House contava com uma equipe de jovens universitários profundamente religiosos, a maioria do sexo feminino. (...)

(...) O objetivo era integrar o imigrante na cidade, primeiro através do exemplo moral individual, e segundo através da coerção moral. (...) Mas, terceiro, de uma melhoria sistemática do ambiente urbano, mediante a instalação de parques e áreas de recreio e, mediante um sistema mais amplo de parques municipais, que - na opinião do pai da arquitetura paisagística norte-americana, Frederick Law Olmsted - exerceria uma "influência harmonizadora e refinadora...favorável à cortesia, ao autocontrole e à temperança". (...) embora a própria Jane Addams não demonstrasse qualquer tendência para essa "salvação geográfica". Veio daí a idéia de que a própria cidade pudesse engendrar lealdade cívica, e assim assegurar uma ordem moral harmoniosa; a aparência física da cidade simbolizaria sua pureza moral. Esse passou a ser o dogma básico do Movimento City Beautiful. (...) Em termos práticos, Jane Addams seguiu a receita Lawrence Veiller: desempenhou um papel-chave na abertura do inquérito de Robert Hunter sobre o problema da moradia dentro dos conjuntos de habitações coletivas de Chicago, e resultou num decreto municipal de 1902 para conjuntos de habitações coletivas.

UM PROBLEMA INTERNACIONAL

Os pobres que se amontoavam em Londres, vindos do Wessex ou de East Anglia, ou em Nova York, vindos da Itália e da Polônia, estavam verdadeiramente melhor fora de suas terras do que nelas; ou pelo menos era assim que pensavam, e ninguém melhor do que eles para sabê-lo.

3. A Cidade do Desvio Variegado. O Subúrbio do Transporte de Massa: Londres, Paris, Berlim, Nova York (1900-1940)

A cidade dispersou-se e desconcentrou-se. Novas casas, novas fábricas, foram construídas em sua periferia. Novas tecnologias do transporte - o bonde elétrico, o trem elétrico de interligação com o centro, o metrô, o ônibus - permitiram que esse processo de suburbanização se concretizasse.

O CONSELHO DO CONDADO DE LONDRES COMEÇA A CONSTRUIR

Logo ao iniciar-se o novo século, (...) Charles Booth publicou outro documento, exaltando agora as virtudes da "melhoria nos meios de locomoção como um primeiro passo para a solução das dificuldades de habitação em Londres". (...) Embora a Comissão Real de 1885 recomendasse que as classes trabalhadoras fossem realojadas no centro, durante a década de 90 essa idéia foi rapidamente posta de lado.

A maioria progressista - isto é, de influência fabiana - dominou o Comitê da Habitação do LCC desde o início, em 1890. Achando que estava sendo impedido de construir na periferia de seus próprios limites intra-urbanos de Londres o LCC pressionou o Parlamento até conseguir que em 1900 se aprovasse uma emenda que
pág.19 (clique para voltar aos títulos)
lhe permitia construir grandes conjuntos de "habitações para a classe trabalhadora" nas regiões verdes dos limites do condado e até para além deles. (...)

Em 1889, os membros do Conselho mobilizaram-se para comprar os campos de Totterdown, situados em Tooting, sul de Londres. O que viabilizou sua urbanização foi a eletrificação dos bondes que o LCC adquirira de interesses privados poucos anos antes. (...) Uma segunda área periférica, situada em Norbury, junto à área do LCC, (...) Uma terceira, White Hart Lane, em Tottenham, norte de Londres, o LCC confiara na instalação de uma linha do metrô, mas a linha não foi aprovada.

No quarto local, Old Oak, oeste de Londres, o conjunto foi planejado ao redor de um ramal da Central London Railway (...) um exemplo clássico de colônia-satélite, planejado ao redor de uma linha de transporte vinda da cidade; antecipa em mais de uma década o que Bruno Taut iria fazer em Onkel Tom Hütte, na Berlim dos anos 20, e Sven Markelius faria em Vällingby e Farsta, Estocolmo, no período de 1955 a 1965.

(...) o estilo LCC dos primeiros tempos era idêntico, em espírito e resultado prático, ao adotado, naqueles mesmos anos, por Raymond Unwin e Barry Parker em New Earswick Garden Village, arrabalde de York, em Letchworth Garden City e em Hampstead Garden Suburb, e que constitui o foco central do Capítulo 4.

(...)Os arquitetos LCC nem sempre foram tão felizes.No primeiro de seus projetos,completado em 1900 - o conjunto residencial da Rua Boundary,em Shoreditch,esquema de realojamento em área central que substitui o Jago,célebre cortiço do século XIX -,puderam eles obter um efeito notável:espécie de palácio para pobres,impressionante ainda hoje,apesar de passados quase noventa anos.Mas em seus primeiros esquemas - 1261 casas em Totterdown Fields(1903-1909),881 casas em White Hart Lane(1904-1913)e 472 em Norbury(1906-1910) - o quadriculado foi mais forte(...)

Só depois de 1910 começaram a soltar-se.Na pequena área destinada a 304 casas em Old Oak,Hammersmith, trabalharam com toda a liberdade,puderam construir em ruas curvas em torno da estação do metrô,tendo como fundo o vasto espaço verde de Wormwood Scrubs.

OS PRIMEIROS ESQUEMAS DE PLANEJAMENTO URBANO

(...)Hoje,num curto giro pela zona oeste de Londres,o estudioso atento da história do planejamento pode reconhecer três clássicos da primeira época: o conjunto residencial de Old Oak,do LCC de 1912-1914,próximo a ele o cooperativo subúrbio-jardim dos Mutuários de Ealing,1906-1910,e Ruislip-Northwood.(...)

NOVA YORK DESCOBRE O ZONEAMENTO

Os norte-americanos já haviam feito coisa melhor.Seus clássicos subúrbios do século XIX e início do XX,todos eles planejados em torno de estações ferroviárias de interligação com o centro - Llewellyn Park,em Nova Jersey,Lake Forest em Riverside,arrabalde de Chicago,Forest Hills Gardens em Nova York - tinham todos um padrão de projeto conspicuamente alto; Riverside,como veremos no Capítulo 4,foi quase com certeza um dos modelos utilizados por Ebenezer Howard em sua cidade-jardim.

(...)Nova York inaugurou seu primeiro trecho de metrô em 1904(...)Entretanto,como efeito indireto do trabalho de Veiller,surgiu a Comissão para a Superpopulação,criada graças aos esforços dos líderes de centros assistenciais em 1907,e que,em seu relatório de 1911,declarou-se a favor da descentralização através do sistema de transporte.(...)transporte melhor era faca de dois gumes:também poderia significar uma saturação populacional até pior do núcleo urbano,visto que traria mais trabalhadores para dentro dele e contribuiria para uma crescente valorização do solo.Eis o paradoxo que só uma medida complementar que impusesse restrições à altura e à concentração dos edifícios poderia resolver.

O secretário executivo da Comissão era Benjamin C. Marsh,um advogado e reformista social,seu colega visitante,um advogado nova-iorquino chamado Edward M. Bassett. Marsh,em especial,escolheu Frankfurt e seu Bürgermeister Franz Adickes,como o modelo a ser seguido pelas cidades norte-americanas.(...)

Portanto ,o zoneamento chegou a Nova York vindo da Alemanha,(...)foi o modelo alemão de zoneamento conjugado de uso do solo e altura de edifícios que,importado pela cidade de Nova York quando da aprovação da lei de zoneamento de 1916,constitui o mais significativo avanço já registrado na história ainda incipiente do planejamento urbano norte-americano.

(...) No mesmo ano da aprovação da lei em Nova York,John Nolen,concordando com um escritor inglês, afirmaria que o planejamento norte-americano só tinha como meta o progresso urbano quando este não colidia com interesses paramentados. E como foi de Nova York que o zoneamento, como movimento,se espalhou pela nação inteira, essa foi a imagem que dele ficou.

(...) em 1921, Herbert Hoover,no cargo de ministro do Comércio, criou um Comitê Consultivo para Zoneamento que incluía Bassett e Veiller; daí resultou uma Lei de Incentivo ao Zoneamento Estatal Padronizado, de 1923, amplamente adotada e à qual se seguiu, em 1927, uma Lei de Incentivo ao Planejamento Urbano Padronizado, adotada por vários Estados a fim de darem autoridade legal aos planos diretores municipais. E uma série de questões legais sobre limites, que culminaram no histórico caso de 1920, Povoado de Euclid, Ohio, et al.
pág.20 (clique para voltar aos títulos)
vs. Ambler Realty Company, estabeleceu a validade do zoneamento como legítima expressão do geral poder de polícia. (...) Em Euclid vs. Ambler, o grande planejador-advogado Alfred Bettman declarava que o "bem-estar público" servido pelo zoneamento consistia na valorização das propriedades da comunidade. (...)Ou nas palavras de um comentador tardio [F. J. Popper(1981)]:

"O objetivo básico do zoneamento era mantê-Los em seus lugares - fora."

LONDRES: O METRÔ ACARRETA O ESTIRAMENTO SUBURBANO

(...) Acima de tudo, o crescimento da construção habitacional com fins lucrativos ao redor de Londres dependia do transporte sobre trilhos. No interior da Inglaterra,ao contrário do que ocorria em Londres,esse sistema estava nas mãos da iniciativa privada: especificamente do grupo Underground e das companhias Southern e a London and North Eastern.

(...) Mas o mais colorido exemplo nos é dado pela trajetória percorrida por Charles Tyson Yerkes (1837-1905) (...) "homem não confiável". Foi ele que desenvolveu o sistema de linhas de bonde de Chicago (...) e quase provocou um levante popular,o mais prudente era deixar a cidade. Londres foi um natural ponto de atração.(...)em 1901, Yerkes adquirira boa parte da rede londrina existente e nova,e a consolidara numa nova companhia, a Underground Eletric Railway of London Limited,empenhando-se numa luta titânica com outro magnata norte-americano, J. Pierpont Morgan, pelo direito de construir novas linhas de metrô em Londres.

(...)No ano seguinte à morte de Yerkes,George Gibb,seu sucessor como presidente da UERL,contratava Frank Pick.(...)os diretores da UERL acataram a vontade dos interesses norte-americanos que os controlavam e indicaram para o posto de gerente geral Albert Stanley.Stanley(mais tarde,Lorde Ashfield) e Pick,homens de personalidades muito diferentes,mas complementares,iriam formar controversamente a mais importante equipe de gerenciamento já conhecida na história do transporte público urbano; Ashfield iria tornar-se presidente,e Pick o vice-presidente e principal administrador executivo.Em 1912,quando a UERL assumiu a direção da London General Omnibus Company,Pick começou a implantar linhas subsidiárias de ônibus a partir dos terminais do metrô,conforme o modelo original de Yerkes para o plano dos bondes. "Onde terminam os trilhos começam os ônibus",ampliando cinco vezes mais a área servida.

(...)em fins da década de 30 - quando os últimos ramais do metrô foram concluídos - o sistema como um todo atingira o seu limite.

O LEGADO DE TUDOR WALTERS

(...)Em seu livro,que tanta influência teve,The Home I Want(O Lar que Eu Quero,1918),este reformador do sistema habitacional que foi o capitão Reiss iria afirmar que "todos em geral concordam,até os que acreditam na iniciativa privada,que não há outra política a adotar de imediato,no pós-guerra" senão a da construção promovida por autoridade local.(...)Quase da noite para o dia,o problema da habitação para as classes trabalhadoras tornou-se de responsabilidade pública.O resultado,entre as duas guerras mundiais,foi o aparecimento de mais de um milhão de moradias construídas pelas autoridades locais.

(...)A considerável e precoce reputação de Unwin deveu-se a seus projetos para a primeira cidade-jardim,em Letchworth,e para o subúrbio-jardim de Hampstead,dos quais nos ocuparemos no Capítulo 4.(...)seu nome foi indicado para o Comitê da Habitação presidido por Sir John Tudor Walters,que apresentou um relatório em outubro de 1918.

Esse documento constitui um dos fatores que mais poderosamente influiu no desenvolvimento da cidade britânica do século XX.Na essência,eram quatro as propostas por ele apresentadas.Primeira: (...)autoridades locais subsidiadas,evidentemente,pelo governo - poderiam executar perto de 500.000 casas num curto espaço de tempo,100.000 por ano;(...)Segunda: que as autoridades locais deviam construir principalmente em terra barata e não urbanizada,(...)Terceira: densidades máximas de doze casas unifamiliares por acre,(...)Quarta: que para garantir-se a boa qualidade do projeto,as plantas deveriam ser elaboradas por arquitetos e aprovadas pelos delegados da Junta do governo local e seu equivalente escocês.

O relatório representou um triunfo pessoal para Unwin.Todas as idéias básicas,extraídas do seu panfleto Nothing Gained by Overcrowding!(Nada se ganhou com a Superlotação!,1912),foram adotadas:distância mínima de 70 pés entre uma casa e outra para garantir a luz solar no inverno,uso de sobrados geminados em fileiras de curta extensão,um jardim para cada família,preservação do fundo do terreno vazio como espaço recreacional,enfatização da necessidade de becos para as crianças brincarem a salvo.(...)No dia seguinte ao Armistício,Lloyd George anunciava "moradias dignas dos heróis que ganharam a guerra"(...)

Neville Chamberlain reagiu: "Concordo que nosso problema habitacional chegou a um ponto tal que constitui uma ameaça à estabilidade do Estado" Lloyd George voltou a insistir: "Dentro em pouco,talvez tenhamos três quartos da Europa convertidos ao bolchevismo,a Grã-Bretanha poderia resistir mas para isso teria de conquistar a confiança do povo...Mesmo se
pág. 21 (clique para voltar aos títulos)
custasse um milhão de libras,o que é isso comparado com a estabilidade do Estado?"

"O dinheiro que vamos agora gastar em habitação é um seguro contra o bolchevismo e a revolução"

(...)Havia dois grandes remédios: construir para cima ou mudar.(...)o testemunho dos médicos sanitaristas e assistentes sociais tornou claro que "a casa independente é o que atrai o trabalhador"(...)Entre 1919 e 1933-1934,as autoridades locais construíram,na Grã-Bretanha,763.000 casas(...)Construíram-nas obedecendo à recentíssima prescrição de Unwin,sob forma de satélites periféricos ao invés de cidades-jardim independentes.

A CONSTRUÇÃO DE "SUBURBIA"

Antes da I GG,a esmagadora maioria da população morava em casas alugadas.Terminado o conflito,numerosos fatores conspiraram para persuadir milhões de indivíduos de classe média a comprarem suas casas.Os bons salários pagos a uma ampla camada da população - especialmente ao novo grupo dos colarinhos-brancos e aos trabalhadores qualificados de colarinho-azul,entraram em rápida ascensão.

(...)Tendo o Royal Institute of British Architects banido a prática da arquitetura com fins lucrativos em 1920,a vasta maioria dessas casas - quase três milhões delas entre as duas guerras - foi projetada por assistentes não qualificados ou teve seu modêlo extraído de livros ou revistas.Só na década de 30 começaram as firmas maiores a empregar arquitetos.

(...)O modelo resultante foi imortalizado pelo caricaturista Osbert Lancaster,como "desvio variegado"(...) "qualquer que fosse o lugar ocupado na hierarquia esnobística,todos os subúrbios ostentavam a mesma característica de casas unifamiliares dentro de jardins e em ambiente razoavelmente afastado da sujeira,do barulho e da aglomeração da cidade"(...)

Mas os arquitetos não gostaram,não pouparam insultos aos subúrbios,cuja falha principal estava em divergirem de todos os padrões básicos do bom gosto: o neogeorgiano ou o moderno sem concessões adotado pelos jovens membros do CIAM.Ao invés disso,seu aconchegante vernacular de imitação derivava de uma tradição arquitetônica muito mais antiga,iniciada por John Nash em Blaise Hamlet e Park Village West,e desenvolvida como grande arte por vitorianos tardios como Philip Webb,Norman Shaw e Raymond Unwin.(...)Coube a Osbert Lancaster expressá-lo melhor:

"Se um arquiteto de incomum energia,diligente ingenuidade e(...)de como melhor realizar o máximo de inconveniência na forma e distribuição,sob um único teto,(...)que vasculhasse a história da arquitetura em busca dos menos atrativos materiais e projetos conhecidos do passado,(...)"

A VINGANÇA DOS ARQUITETOS

Clough William-Ellis,em England and the Octopus (A Inglaterra e o Polvo,1928),descrevia as urbanizações "como piolhos sobre uma tênia".

Em 1938,William-Ellis voltou ao ataque com Britain and the Beast (A Inglaterra e a Fera),volume de ensaios editado por figuras exponenciais da época,como Keynes,E. M. Forster,C. E. M. Joad,G. M. Trevelyan e outros.

Thomas Sharp,talvez o escritor que mais prolificamente se ocupou de problemas urbanísticos no início dos anos 30,assumiu uma linha mais dura.(...)O remédio virá através dos "grandes e novos blocos de prédios de apartamentos que alojarão parte considerável da população da cidade futura".Foi assim que Sharp aderiu às fileiras corbusianas,distanciando-se em definitivo da tradição cidade-jardim.

Na verdade,um sentimento partilhava ele,na época,com os corbusianos e os comentadores em geral: o horror ao que Anthony King chamou de democratização do campo,ou seja,a invasão pela classe média baixa e pelo operariado de uma área até então reservada a uma elite aristocrática e classe média alta.Joad,em seu ensaio de 1938,expressou-o de forma reveladora:

(...) "Onde houver água,há gente: nas praias,nas ribanceiras,deitada em atitudes de uma sordidez despida e deselegante,grelhando os corpos ao sol,na frente de todos,como bifes.(...)"

(...)algumas poucas vozes discordantes.(...)da jovem Evelyn Sharp,secretária do Comitê Consultivo para Desenvolvimento da Cidade e do Campo do Ministério da Saúde,que escrevia sobre a necessidade de "lembrar que o campo não é um lugar reservado às classes ricas e ociosas.(...)"

Em 1938,os William-Ellis e os Joads ganharam um novo e poderoso aliado.Em cada uma de suas aparições públicas dos anos 20 e 30,Frank Pick lamentava a oportunidade que se estava perdendo com a falta de projetos.

Neville Chamberlain,ao tornar-se primeiro-ministro em fins de 1937,imediatamente pôs em atividade uma Comissão Real para a Distribuição Geográfica da População Industrial,presidida por Sir Anderson Montague-Barlow.Em seu depoimento para a Comissão Barlow,Pick chegara à conclusão de que,se Londres crescesse além do limite mágico de 12 a 15 milhas estabelecido pelo sistema de metrô, "necessariamente deixará de ser intrinsecamente Londres...um conceito unitário".Portanto,afirmava,Londres precisa parar de crescer.

4. A Cidade no Jardim. A Solução Cidade-Jardim: Londres, Paris, Berlim, Nova York (1900-1940)

pág.22 (clique para voltar aos títulos)

Ebenezer Howard (1850-1928) leva a palma como a mais importante e singular personalidade de toda esta história.(...)Há quem pense,ainda hoje,que seu intento era confinar as pessoas em cidadezinhas isoladas em pleno campo,quando ele simplesmente propunha o planejamento de conurbações com centenas de milhares,quiçá milhões de habitantes.

(...)Publicado em 1898 com o título To-morrow:A Peaceful Path to Real Reform(Amanhã:Um caminho Tranqüilo para a Reforma Autêntica),ganhou nova edição em 1902 com o título de Garden Cities of To-morrow

AS FONTES DAS IDÉIAS HOWARDIANAS

Suas idéias,ele as desenvolveu na Londres de 1880 e 1890,época de fermentação radicalista que descrevemos no Capítulo 1.Nascido na City de Londres em 1850 - fato comemorado em placa afixada na ponta extrema da imensa reurbanização do Barbican - ao completar 21 anos,emigrou para a América,de 1872 a 1876,passou a morar em Chicago e presenciou a reconstrução da cidade após o incêndio de 1871.Chicago era universalmente conhecida como a cidade-jardim.Ele deve ter visto o novo subúrbio-jardim de Riverside,projetado pelo grande arquiteto-paisagista Frederick Law Olmsted,(...)

De volta à Inglaterra,pôs-se seriamente a meditar e a ler.(...)Edward Gibbon Wakefield,cinquenta anos antes,desenvolvera a idéia de uma colonização planejada para os pobres.(...)tão logo uma cidade atingisse determinado tamanho,dever-se-ia começar uma segunda,separada da anterior por um cinturão verde:origem do conceito de cidade social,admitia Howard.O plano de James Silk Buckingham para uma cidade-modelo deu-lhe a maioria dos traços básicos para o seu diagrama de cidade-jardim:a praça central,as avenidas radiais e as indústrias periféricas.Povoados industriais que foram pioneiros no campo,como Port Sunlight,de Lever,perto de Liverpool,e Bournville,de Cadbury,nos arredores de Birmingham,forneceram-lhe não só um modelo físico como uma ilustração prática de descentralização industrial bem-sucedida a partir da cidade superpovoada.

O economista Alfred Marshall,num artigo de 1884,sugerira que havia "amplos setores da população de Londres cuja remoção para o campo seria,a longo prazo,economicamente vantajosa - beneficiando por igual tanto os que se mudavam quanto os que ficavam para trás".Seu raciocínio baseava-se no fato de que novas tecnologias iriam viabilizar essa dispersão - idéia retomada pelo anarquista Piotr Kropotkin em seu Fields,Factories and Workshops(Campos,Fábricas e Oficinas),de 1898,e que certamente influenciou Howard.(...)

De Herbert Spencer tirou ele a idéia da nacionalização da terra,(...)Na verdade,cada uma de suas idéias pode ser encontrada no passado e,com frequência,repetida à exaustão:Ledoux, Owen, Pemberton, Buckingham e Kropotkin,todos projetaram cidades para populações limitadas,circundadas por cinturões verdes de terras cultivadas; More, Saint-Simon, Fourier,todos projetaram cidades como elementos de um complexo regional;Marshall e Kropotkin viram o impacto que o desenvolvimento tecnológico produzia sobre a localização das indústrias,sendo que Kropotkin e Edward Bellamy também perceberam que isso iria favorecer as pequenas oficinas.Mas embora atraído pelo sucesso de livraria que era o Looking Backward(Olhando para Trás,1888),de Bellamy,Howard não aceitou seu gerenciamento socialista centralizado e sua insistência em subordinar o indivíduo ao grupo,que ele considerava como manifestações de autoritarismo.

(...)Movimento Regresso à Terra,que (...)floresceu em meio à intelligentsia entre 1880 e 1914: genuíno movimento alternativo,similar,sob vários aspectos,aos movimentos irrompidos em 1960 e 1970.Pelo menos 28 comunidades desse tipo podem ser rastreadas no século XIX,mas de todas elas apenas cinco ou seis eram rurais; seus habitantes incluíam socialistas utópicos,socialistas agrários,membros de seitas religiosas e anarquistas.

A CIDADE-JARDIM E A CIDADE SOCIAL

(...)famoso diagrama dos Três Ímãs(...)A cidade-jardim teria um limite fixo - Howard sugeriu 32000 habitantes para 1000 acres de terra,perto de uma vez e meia mais que a cidade histórico-medieval de Londres.A seu redor,uma área muito mais larga de cinturão verde perene,também de propriedade da companhia - Howard propôs 5000 acres(...)

A crescente transferência de pessoas para o lugar faria com que a cidade-jardim atingisse o limite planejado; e então começar-se-ia outra,a pouca distância dali.(...)

Howard deu a essa visão policêntrica o nome de cidade social.(...)esse conglomerado de cidades-jardim,e não a cidade-jardim individualizada,é que constituía a realização física da cidade-campo:o terceiro ímã.

(...)Conforme adianta,acertadamente,Lewis Munford em sua introdução ao livro(1946),Howard estava muito menos interessado em formas físicas do que em processos sociais.A chave de tudo estava em que os cidadãos seriam proprietários perpétuos da terra.(...)

Howard pôde,assim,argumentar que seu sistema constituía um terceiro sistema socioeconômico,superior tanto ao capitalismo vitoriano quanto ao socialismo centralizador e burocrático.Suas tônicas seriam:gerenciamento local e autogoverno.(...)as pessoas construiriam suas próprias casas com capital fornecido por sociedades construtoras,associações de ajuda mútua,cooperativas ou sindicatos.E essa atividade passaria,em troca,a dirigir
pág.23 (clique para voltar aos títulos)
a economia; quarenta anos antes de John Maynard Keynes ou de Franklin Delano Roosevelt,Howard chegara à conclusão de que a sociedade poderia sair de uma recessão às suas próprias custas.

Ela o faria,contudo,sem a intervenção central e em grande escala do Estado.O plano de Howard devia realizar-se através de milhares de pequenas empresas:todo homem e toda mulher seriam um artesão,um empresário.

LETCHWORTH E HAMPSTEAD: UNWIN E PARKER

(...),Howard tomou a iniciativa de organizar uma Garden City Association para discutir suas idéias,(...)Um ano mais tarde,em 1900,decidia-se a formação da First Garden City Limited,dois anos depois,a Garden City Pioneer Company.(...)Letchworth,a 34 milhas de Londres,satisfez os critérios(...)Assim,os primeiros moradores foram aqueles idealistas típicos da classe média,artistas que deram a Letchworth uma permanente reputação de excentricidade que ela mais tarde deixou de merecer:(...)

Logo,porém,os excêntricos classe média do início foram suplantados pelos trabalhadores de colarinho azul que passariam a constituir a raison d’être da cidade-jardim.Mas estes,por uma curiosa ironia,ao invés de participarem do espírito cooperativista do empreendimento,optaram pelo sindicalismo e pelo socialismo.

(...)Mas acima de tudo foi nas mãos de Raymond Unwin (1863-1940) e Barry Parker (1867-1947) que encontrou sua perfeita realização física.

(...)Nenhum deles foi formalmente treinado para arquiteto; Unwin começou como engenheiro,Parker como decorador de interiores.(...)

Unwin logo se tornou um socialista na linha de William Morris,juntando-se ao grupo Sheffield organizado por Edward Carpenter,um dos fundadores da Fabian Society,onde Kropotkin era interpretado como a união entre ofício artesanal e trabalho intelectual.Antes de 1900,trabalhou no projeto de chalés para povoados de mineiros em sua região natal.Daí nasceu o livro Cottage Homes and Common Sense(Casinhas de Campo e o Senso Comum,1902),eloqüente defesa da melhoria da habitação para a classe trabalhadora: (...) "se,ao invés de desperdiçados em quintais acanhados e sujas ruelas traseiras,os espaços disponíveis das várias casas fossem reunidos num só,teríamos uma praça ou um jardim respeitáveis" (...)

Já naquele ano,Parker e Unwin trabalhavam em uma de suas primeiras e mais importantes encomendas:a aldeia-jardim de New Earswick para a família do chocolate Rowntree,(...)

Unwin confessou ainda não conhecer,à época da elaboração do projeto,a obra de Camillo Sitte,Die Städtebau nach der künstlerischen Grundsätzen(A Urbanização segundo as Doutrinas Estéticas),publicada há cerca de uma década,e onde se dava ênfase às qualidades informais das cidades medievais,lição que Unwin jamais esqueceria.Town Planning in Practice(Planejamento Urbano na Prática),publicada em 1909 - apenas meia década depois de Letchwoth -,é memorável sobretudo pelos esplêndidos desenhos de velhas cidades e aldeias inglesas,francesas e alemãs,com base nos quais ele desenvolveu seu conhecimento sobre as relações existentes entre edifícios e espaços.(...) "Acima de tudo,precisaremos infundir o espírito do artista em nosso trabalho"(...) "Tanto no planejamento da cidade quanto do terreno,é importante evitar-se a separação total das diferentes classes de pessoas,o que constitui uma característica da cidade inglesa moderna"

(...)A Lei de Habitação e Planejamento Urbano de 1909 facultou a "sociedades de utilidade pública"desse tipo a possibilidade de tomarem dinheiro emprestado a juros baixos e,em 1918,havia mais de cem delas.

Hampstead,era negócio bem maior.Sua genitora foi Dame Henrietta Barnett,(...)Em puro estilo inglês classe média,a Sra Barnett decidiu iniciar uma campanha de compra de terras para ampliar Hampstead Heath e assim frustrar as ambições imobiliárias dos empreendedores.(...)Imediatamente se montou um grupo empresarial para o fornecimento de 8000 casas; Unwin e Parker foram os arquitetos escolhidos.(...)

Mas na Praça da Cidade,Unwin acata integralmente as diretivas de Lutyens,o projetista das duas grandes igrejas e do instituto adjacente.O resultado é um exercício anômalo,pesadamente formal dentro da tradição City Beautiful: (...)com a suspeita aparência de um anteprojeto de acesso ao palácio do vice-rei,em Nova Delhi (Capítulo 6).

(...)Projetada por Louis de Soissons no estilo neogeorgiano,Welwyn é muito mais formal do que Letchworth ou Hampstead,sobretudo por sua enorme alameda central,no estilo Lutyens,de quase uma milha de comprimento: espécie de cidade-jardim monumental,uma "Garden City Beautiful".

O MOVIMENTO CIDADE-JARDIM ENTRE AS DUAS GUERRAS

Em 1912,Unwin recomendara a construção de "cidades-satélites"próximas dos municípios,subúrbios-jardim dependentes do município para a obtenção de empregos.(...)

Os satélites interioranos constituíram exceções parciais.Wythenshawe,projetado por Barry Parker para Manchester em 1930,é realmente um dos que resistem.(...)

Seu notável feito consiste em introduzir três princípios do planejamento norte-americano,(...).O primeiro é o princípio da unidade de vizinhança(...)O segundo é o princípio do esquema Radburn,que Clarence Stein e Henry Wright haviam desenvolvido em seu plano para a cidade-jardim do mesmo nome,em 1928,(...)O terceiro é o
pág. 24 (clique para voltar aos títulos)
princípio da parkway que Parker havia observado na região de Nova York mas que agora empregava de maneira absolutamente original.

A CIDADE-JARDIM NA EUROPA

O primeiro,pela ordem,foi,não há dúvida,o engenheiro espanhol Arturo Soria y Mata (1844-1920),que expôs seu conceito de La Ciudad Lineal num artigo de revista de 1882,desenvolvendo-o num projeto de 1892.(...)Mas a cidade linear nunca passou de um subúrbio-dormitório urbanizado segundo as leis da especulação comercial.

Soria alimentava sonhos ainda mais grandiosos no sentido de implantar cidades lineares por toda a Europa,o que,em 1928,após sua morte,inspirou a formação de uma Association Internationale des Cités Linéaires,cujo cérebro foi o influente planejador francês Georges Benoît-Levy; ecos de seu sistema podem ser detectados nos desurbanistas russos dos anos 20 e no pensamento de Le Corbusier dos anos 30.

O Howard francês foi Tony Garnier (1869-1948), um arquiteto de Lião,que parece ter concebido sua Cité industrielle em 1898,ano de publicação de To-morrow,(...); anarquista que era,deu ênfase também à propriedade comum,rejeitando símbolos da repressão burguesa,tais como delegacias de polícia,tribunais,prisões ou igrejas,e erguendo seu vasto edifício central,onde podiam reunir-se 3000 cidadãos.(...)

Theodor Fritsch publicou seu Die Stadt der Zukunft (A Cidade do Futuro)dois anos antes da obra de Howard,em 1896; sua obsessão era de que Howard lhe roubara as idéias,(...): fanático propagandista do racismo,Fritsch projeta uma cidade onde cada indivíduo sabe,de imediato,qual o seu lugar dentro de uma ordem social rígida e segregacionista.(...)

Uma dessas primeiras interpretações das idéias de Howard,Le Cité-Jardin,de autoria de Georges Benoît-Lévy,conseguiu estabelecer uma confusão elementar entre cidade-jardim e subúrbio-jardim,confusão da qual os urbanistas franceses jamais puderam,daí em diante,desvencilhar-se.(...)Henri Sellier,como diretor do Office Public des Habitations à Bon Marché du Département de la Seine,projetou dezesseis cités-jardins ao redor de Paris,entre 1916 e 1939,(...)

(...),Margarethenhöhe é uma New Earswick transplantada.Seu arquiteto,Georg Metzendorf,seguiu fielmente a tradição Unwin-Parker,(...)

O Gartenstadtbewegung (movimento cidade-jardim),contudo,queria uma Letchworth alemã.A cidade-jardim implantada em Hellerau,a 8 quilômetros(5 milhas)de Dresden,era - como Margarethenhöhe - essencialmente um subúrbio-jardim situado no ponto final de uma linha de bondes.Hellerau abrigava as Deutsche Werkstätte fürHandbaukunst (Oficinas Alemãs de Artesanato)(...)Enfileiradas e semi-isoladas,as casas de Heinrich Tressenow,inteiramente fiéis à tradição Unwin-Parker,(...)É uma pequena jóia anômala.

(...)Já na metade da Primeira Grande Guerra,o termo Lebensraum fora ominosamente posto em uso,ocasionando a remoção de populações consideradas perigosas para o "caráter nacional".Na década de 20,esses temas iriam tornar-se um elemento poderoso do pensamento nazista.

(...)Em Frankfurt,um Conselho de Operários e Soldados dominou a política durante um ano,após o armistício de 1918.Quando finalmente os socialdemocratas chegaram ao poder no município,sua estratégia,durante a administração do prefeito Ludwig Landmann (1924-1933),consistiu em restaurar a paz social mediante um implícito pacto social entre capital e trabalho:tema que se iria repetir na criação da Wohlfahrtsgesell-schaft (Sociedade do Bem-Estar)após a Segunda Guerra Mundial.(...)Mas,a fim de satisfazer às exigências do setor trabalhista,o município iria igualmente embarcar num intenso programa habitacional.

Landmann conquistou a adesão do arquiteto-urbanista Ernst May (1886-1970)que ganhara considerável reputação com seus projetos para a cidade de Breslau (Vroclávia).Graças aos avançados programas do famoso prefeito Franz Adickes,que administrara Frankfurt antes da guerra,o município comprou enormes extensões de terra a preços fundiários ínfimos nos campos circunvizinhos.Assim,ao chegar,em 1925,May teve tudo de que necessitava para desenvolver um projeto urbanístico fantasticamente inovador.

Como Sellier em Paris,May foi profundamente influenciado pelo movimento cidade-jardim; trabalhara com Unwin,em 1910,tanto em Letchworth quanto em Hampstead; (...)Quando o projeto provou ser politicamente inviável,May recuou para uma concessão: a urbanização sob forma de cidades-satélites(Trabantenstädte), separadas do município apenas por um estreito cinturão verde,ou "parque do povo",(...)May rompeu por completo com seu mestre Unwin e,não há dúvida,com a tradição inglesa dos anos 20: seus satélites deviam ser projetados rigidamente como arquitetura moderna,em forma de longas fileiras de casas com cobertura plana e ajardinada,onde as pessoas pudessem tomar seu café da manhã,seu banho de sol e plantar.(...),enfileirados ao longo do vale do Rio Nidda,a noroeste do município,representam os satélites clássicos,1441 moradias em Praunheim,1200 em Römerstadt.O que os tornou dignos de nota foi a disposição das casas em compridas fileiras ao longo do rio,a localização das escolas e Kindergarten na baixada,e o aproveitamento do vale como um cinturão verde natural onde se acham concentrados todos os tipos de serviços: lotes para hortas,campos esportivos,canteiros de flores para comércio,escolas de jardinagem para jovens,(...)May divergia sobremuitas coisas de outro grande planejador urbano da época de Weimar,o berlinense Martin Wagner (1885-1957),mas
pág.25 (clique para voltar aos títulos)
ambos partilhavam a crença numa nova parceria entre capital e trabalho,e numa reintegração do trabalho com a vida.A linha May-Wagner era uma variante de espírito coletivista,divergindo drasticamente das fontes anarco-cooperativistas da tradição Howard-Unwin: nas palavras do próprio May,seu objetivo era "a coletivização dos elementos da vida"(...)não é de admirar que Unwin se tenha tornado francamente impopular ao investir sem tréguas contra a arquitetura moderna.(...)

Wagner,de forma alguma,acreditava em satélites; seu ideal era a Siedlung (colônia).(...)O exemplo ideal é Siemenstadt,desenvolvida pela gigantesca companhia de material elétrico em torno de seu complexo industrial no setor noroeste do município,entre 1929 e 1931.É uma Gro(siedlung(grande colônia),cada nome da arquitetura alemã dos anos 20 tem seu quinhão; é um sítio de reverente peregrinação,(...)os mestres - Scharoun, Bartning, Häring, Gropius e outros - colocaram blocos de apartamentos de quatro e seis andares dentro de um vasto jardim,(...)

Onkel-Toms-Hütte (Cabana do Tio Tomás),construída entre 1926 e 1931,intitula-se a si mesma colônia florestal (Waldsiedlung),(...)de autoria de Bruno Taut e Hugo Häring dentro do idioma moderno dos anos 20,(...)Britz (1925-1931),projetada por Bruno Taut e Martin Wagner,é mais formal: suas fileiras de casas de dois e três andares agrupam-se em torno da célebre Hufeisensiedlung,onde o bloco de quatro andares dobra-se em forma de imensa ferradura à volta de um lago.(...)As duas urbanizações são esplêndidas; ambas,ironicamente, representam a antítese total da idéia de cidade-jardim.

CIDADES-JARDIM PARA A AMÉRICA

(...),os arquitetos foram Clarence Stein (1882-1975) e Henry Wright (1878-1936).Sua contribuição ímpar para a cidade-jardim reside no manejo do tráfego e da circulação de pedestres através do chamado esquema Radburn,por eles desenvolvido para a cidade-jardim do mesmo nome,em 1928.(...)outra figura,que,nunca é associada ao grupo da RPAA: Clarence Perry (1872-1944),(...)o planejador-sociólogo.(...)profundamente influenciado pelos escritos do sociólogo norte-americano Charles Horton Cooley,que acentuara a importância do "grupo primário", "caracterizado pela associação e cooperação íntimas,cara-a-cara"(...)morador que foi do subúrbio-jardim-modelo de Forest Hills Gardens - subúrbio ferroviário,a quase 9 milhas de Manhattan,onde o projeto de Grosvenor Atterbury surge claramente como um derivado do Riverside do Chicago e do Bedford Park de Londres -,Perry viu o quanto um bom projeto poderia contribuir para o desenvolvimento de um espírito de vizinhança.Na inspiração,Forest Hills Gardens deriva do pseudoteutônico de Unwin e Parker em Hampstead,e do genuíno de Margarethenhöhe e Hellerau; mas passa à frente de todos eles,criando uma qualidade de tipo kitsch que antecipa Hollywood.

(...),duas outras Radburns; Chatham Village (1932)em Pittsburgh e Baldwin Hills Village (1941),em Los Angeles.Ambas foram sucessos financeiros.(...)

As cidades Radburn,obra de Stein-Wright,são inquestionavelmente as mais importantes contribuições norte-americanas para a tradição cidade-jardim.(...)

Em 1933,desempregados armaram uma incomodativa aldeia de barracas em pleno coração da cidade de Washington.A primeira idéia que ocorreu a FDR foi a de promover um movimento de retorno à terra; Tugwell [Rexford Guy Tugwell,criador,em meados dos anos 30,das comunidades experimentais de cinturão verde: asperamente atacadas no Congresso por sua inspiração socialista,elas constituíram,no entanto,um modelo para as "novas cidades"subvencionadas pelo governo no pós-guerra britânico](1891-1979),economista da Universidade de Colúmbia que se tornara um dos mais inovadores membros do grupo pensante do presidente,convenceu-o de que esse caminho não levaria a nada.Propunha,em lugar disso, "sair dos centros populacionais,pegar terra barata,construir toda uma comunidade e atrair moradores para o lugar.Em seguida,voltar às cidades,deitar abaixo todos os cortiços e transformá-los em parques".Ameaçou renunciar como meio de forçar Roosevelt,em abril de 1935,a criar o Ministério do Reassentamento,que colocava claramente no mesmo plano a terra e o problema da pobreza;(...)o programa final constou de apenas três cidades: Greenbelt, Maryland,periferia de Washington; Greenhills, Ohio,periferia de Cincinnati; e Greendale, Wisconsin,periferia de Milwaukee.(...)E a maior das três - Greenbelt,projetada com a consultoria de Stein e do arquiteto Tracy Augur,seu colega na RPAA - (...)A arquitetura é de um modernismo mais intransigente que o de Radburn,e o efeito de conjunto lembra curiosamente os melhores esquemas germânicos dos anos 20: Frankfurt ou Berlim transplantadas para os campos de Maryland.

Não demorou para que acabassem com o programa.

NOVAS CIDADES PARA A INGLATERRA: O ESTADO ASSUME O CONTROLE

Na Inglaterra,Lewis Silkin,o ministro trabalhista recém-empossado,designou,em outubro de 1945,uma comissão para dizer-lhes como essas novas cidades deveriam ser construídas.Na chefia colocou John Reith,(...)Osborn; L. J. Cadbury,de Birmingham,e Monica Felton,do LCC,ambos conhecidos defensores das novas cidades.

(...)1 de agosto de 1946,a Lei das Novas Cidades recebeu a sanção Real.Dessa data até 1950,o governo
pág. 26 (clique para voltar aos títulos)
trabalhista designou treze novas cidades na Grã-Bretanha:oito para a área londrina,duas para a Escócia, duas no nordeste da Inglaterra,uma em Gales,e uma no interior do território inglês.(...)

Cada cidade-jardim está circundada por seu próprio cinturão verde,de tal maneira que cada uma surge como uma comunidade urbana isolada com terra cultivável como fundo.

5. A Cidade na Região. Nasce o Planejamento Regional: Edimburgo, Nova York, Londres (1900-1940)

O planejamento regional nasceu com Patrick Geddes (1854-1932),(...)De seus contatos com os geógrafos franceses na virada do século,Geddes absorvera o credo do comunismo anarquista,baseado em livres confederações de regiões autônomas.Graças ao encontro que teve na década de 20 com Lewis Mumford (1895),um jornalista-sociólogo capaz de dar forma coerente a seus pensamentos,essa filosofia passou para um pequeno mas brilhante e devotado grupo de planejadores sediados na cidade de Nova York,de onde acabou fundida às idéias intimamente correlatas de Howard e espalhou-se por toda a América e pelo mundo afora,(...)Mas,a qualidade verdadeiramente radical da mensagem foi abafada e,mais da metade,perdida; hoje,em parte alguma se vê,no chão,a genuína e notável visão da Regional Planning Association of America,destilada,via Geddes, de Proudhon, Bakunin, Reclus e Kropotkin.

GEDDES E A TRADIÇÃO ANARQUISTA

(...)Seus conceitos básicos foram extraídos dos pais fundadores da geografia francesa,Elisée Reclus (1830-1905) e Paul Vidal de la Blanche (1845-1918),e de um dos primeiros sociólogos franceses,Frédéric Le Play (1806-1882),(...)Deles extraiu seu conceito de região natural,de que é um exemplo a sua famosa seção de vale.(...)

O planejamento deve começar,segundo Geddes,com o levantamento dos recursos de uma determinada região natural,das respostas que o homem dá a ela e das complexidades resultantes da paisagem cultural: todo o seu ensinamento sempre teve como tônica persistente o método de levantamento,o que ele também extraiu de Vidal e seus seguidores,cujas "monografias regionais"constituíram tentativas de fazer exatamente isso.(...)em Edimburgo,criou ele um modelo que pretendia ver repetido por toda parte: um centro local de levantamento,a que todo o tipo de gente poderia vir a fim de compreender a relação estabelecida por Le Play na trilogia Lugar-Trabalho-Povo.(...)Somente tal "Seção de Vale,como comumente a chamamos,faz-nos ver com nitidez a zona climática com sua vegetação e vida animal correspondentes[...]o esboço seccional essencial de uma ‘região’de geógrafo,pronto para ser estudado"(...)

"O levantamento precede o Plano"é de Geddes.(...)

A qualidade propositadamente arcaica do levantamento regional,ou seja,a enfatização das ocupações tradicionais e dos elos históricos,não foi,portanto,mero subterfúgio: à semelhança das tentativas de Geddes para resgatar a vida urbana do passado através de máscaras e encenações,representou uma celebração plenamente consciente daquilo que,para ele,constituía a mais alta realização da cultura européia.

(...)Para Geddes,como para Vidal,a região era mais que um objeto de levantamento; a ela cabia fornecer a base para a reconstrução total da vida social e política.(...)Elisée Reclus (1830-1905) e Piotr Kropotkin (1842-1921) eram ambos geógrafos: mas ambos eram também anarquistas.(...)

Ambos baseavam suas idéias em Pierre-Joseph Proudhon (1809-1865),o anarquista francês célebre por sua declaração "Propriedade é Roubo".Ironicamente,os escritos de Proudhon haviam-se dedicado a provar exatamente o oposto: seu argumento era de que a posse individual da propriedade era a garantia essencial para a existência de uma sociedade livre,desde que ninguém possuísse em excesso.Só uma tal sociedade,acreditava ele,poderia fornecer a base para um sistema descentralizado e não-hierárquico de governo federal: idéia partilhada pelo anarquista russo Mikhail Bakunin (1814-1876),cuja derrota e expulsão por Karl Marx na Primeira Conferência Internacional ocorrida em Haia,em 1872,foi um dos acontecimentos decisivos na história do socialismo.

(...)Mas Kropotkin foi ainda mais importante,(...)Seu credo era: "Comunismo Anarquista,Comunismo sem governo - o Comunismo dos Livres"; é mister que a sociedade se reconstrua a si própria com base na cooperação entre indivíduos livres,tal como a que se pode encontrar,na natureza,até mesmo em sociedades animais; essa,no seu entender,a tendência lógica para a qual se estavam encaminhando as sociedades humanas.

Mais que isso.Kropotkin desenvolveu uma notável tese histórica: a de que no século XII havia ocorrido uma revolução "comunalista" na Europa,o que salvara sua cultura das monarquias teocráticas e despóticas que a queriam suprimir;(...)Na cidade da Baixa Idade Média,cada divisão ou paróquia era a província de uma guilda individual autogovernada; a cidade propriamente dita era a união desses distritos,ruas,paróquias e guildas,e era,ela própria,um Estado livre.(...)

No século XVI,essas realizações foram varridas de cena pelo Estado centralizado que representou o triunfo do
pág. 27 (clique para voltar aos títulos)
que Kropotkin chamou de tradição autoritário-imperial-romana.Mas agora,acreditava ele,esta,por seu turno,fora novamente desafiada pelo seu oposto,o movimento libertário-federalista-popular.(...)

(...) "É preciso que as indústrias se dispersem pelo mundo;(...)seguida de uma ulterior dispersão de fábricas pelos territórios de todas as nações.(...)fazendo com que a agricultura tire todas as vantagens que sempre obtém quando se alia à indústria[...]e produzindo uma combinação do trabalho agrícola com o industrial (...)se impõe pela necessidade que tem cada homem e cada mulher saudável de passar uma parte de suas existências executando trabalho manual ao ar livre"

(...)logo após ler a primeira edição de Fields,Factories and Workshops,havia ele batizado a nova era da descentralização industrial de era "neotécnica"(...)a "ordem neotécnica" significava "a criação,de cidade em cidade,de região em região,de uma Eutopia"(...)

Em 1915,Geddes publicou seu livro Cities in Evolution(...)

"Então há que dar-se um nome a essas regiões-município,a esses agregados-cidade.(...)que tal "conurbações" ?

(...) "fazer o campo chegar perto da rua,e não simplesmente a rua chegar perto do campo"

(...)Mumford e seus colegas da Regional Planning Association of America foram importantes com suas luzes críticas. "Geddes",escreveu Mumford, "foi quem forneceu o arcabouço para meu pensamento: minha tarefa tem sido revestir de carne esse abstrato esqueleto".No prefácio de sua obra mais extensa e influente,The Culture of Cities (1938),não economizou ele referências ao reconhecimento dessa dívida.

A REGIONAL PLANNING ASSOCIATION OF AMERICA

Em sua autobiografia,Mumford lembra como ocorreu o nascimento da RPAA.(...)No outono de 1922,encontrou-se com Clarence Stein,um arquiteto.A RPAA surgiu de uma associação casual de Mumford,Stein,Benton MacKaye(cuja proposta para uma Trilha Apalachiana fora publicada por Stein no Journal of the American Institute of Architects,em 1921)e Charles Harris Whitaker.(...)o economista Stuart Chase,os arquitetos Frederick Lee Ackerman e Henry Wright,e o empresário Alexander Bing; (...)The Survey,revista de prestigiosa circulação entre os intelectuais liberais e elo importante entre eles e o movimento social operário,(...)

Já o economista do grupo,Stuart Chase,foi além: (...)

"O planejamento regional de comunidades eliminaria a comercialização nacional antieconômica,eliminaria a superpopulação urbana e os desperdícios terminais,(...)E acabava-se a necessidade do arranha-céu,do metrô e do refúgio na solidão dos campos!"

De novo uma profecia: defendia-se a conservação de energia meio século antes do Clube de Roma.(...)

Mumford volta agora especificamente a seu tema predileto,o advento da era neotécnica: (...)"Ao planejar uma área,o regionalista esforça-se para que todos os seus sítios e recursos,da floresta à cidade,da montanha ao nível d’água,possam ser corretamente desenvolvidos,e que a população seja distribuída de modo que utilize e não aniquile ou destrua as vantagens naturais do lugar.O planejamento regional vê o povo,a indústria e a terra como uma única unidade.(...)"

Aqui é onde entra Howard.Pois se o planejamento regional fornece o arcabouço,a cidade-jardim provê o "objetivo cívico"(...)

"O planejamento regional é a nova conservação - a conservação dos valores humanos de mãos dadas com os recursos naturais[...]"

Esse tema norte-americano é retomado por Benton Mackaye em seu artigo "The New Exploration".(...)

A América,esta terra de colonização relativamente recente,precisa passar pelo aprendizado das mesmas escalas temporais,da mesma inconsciente capacidade de recuperação natural através do bom manejo da terra, que, durante séculos,os camponeses europeus vivenciaram de geração em geração.Essa ênfase reporta-se a várias e distintas linhas do pensamento norte-americano oitocentista: ao conceito de "estrutura,processo e etapa"dos primeiros geógrafos físicos de Harvard,Nathaniel S. Shaler e William M. Davis; às opiniões de um geógrafo ainda mais antigo,George Perkins Marsh ,sobre ecologia e planejamento de recursos; à importância que o retorno à natureza e ao equilíbrio natural assume na obra de David Thoreau.(...)Nesse texto,desenvolveu ele a noção de duas Américas em contraste: a nativa, "mistura da primeva com a colonial",e a metropopolitana, "mistura da urbana com a industrial,esta de amplitude mundial".

(...)A resposta de Mackaye foi um estratagema típico da RPAA: aproveitar a nova tecnologia,mas ao mesmo tempo controlar seu impacto sobre o ambiente natural.(...)E,desenvolvendo a idéia dois anos mais tarde,chegava ele ao conceito da auto-estrada sem cidade: uma via de acesso limitado ao redor de Boston,com postos de gasolina instalados a intervalos,mas sem qualquer outro acesso.Não é de admirar que,perto de quarenta anos depois,Lewis Mumford tenha creditado a Mackaye a invenção da moderna rodovia; o que não é de todo verdadeiro,como mostraremos no Capítulo 9,(...)

Pouca coisa disso tudo,na América de 1920,concretizou-se em programa;(...)através da ação empreendedora de Alexander Bing que a RPAA conseguiu pôr em órbita duas comunidades experimentais: a de Sunnyside Gardens

na cidade de Nova York,e a de Radburn em Nova Jersey(Capítulo 4).
pág. 28 (clique para voltar aos títulos)

RPAA VERSUS PLANO REGIONAL DE NOVA YORK

No maior de seus conflitos com relação a programas,a RPAA encontrou pela frente um inimigo imprevisto. Thomas Adams (1871-1940)fora um dos pais fundadores do planejamento urbano britânico: primeiro diretor geral de Letchworth Garden City,primeiro inspetor de planejamento,membro fundador e primeiro presidente do Town Planning Institute.(...)era um planejador para homens de negócios.A seu ver,o plano devia representar a arte do possível: (...)

(...)errada era a filosofia partilhada por Adams e seu grupo.Era a crença de que,na prática,a forma da região estivesse fixada em definitivo,admitindo apenas modificações incrementais e marginais.(...)na assunção passiva de que a região continuaria a crescer,de 14,5 milhões de pessoas para talvez 21 milhões por volta de 1965,aliada à falta de qualquer proposta definitiva,como,por exemplo,dizer para onde toda essa gente de sobra deveria ir,o objetivo básico era "descentralizar e evacuar Nova York o suficiente para que continue funcionando nos moldes tradicionais"

Em famosa resenha,Mumford condenou o plano em todos os pormenores finais.(...)

O plano de Nova York foi para frente graças a uma Associação do Plano Regional liderada por uma elite de homens de negócios e à ação de Comissões de Planejamento criadas para cada área em particular: foi sobremaneira bem-sucedido em suas propostas de auto-estrada,ponte e túnel,sobretudo porque o arquiteto encarregado foi Robert Moses.Enquanto isso,a receita alternativa de Mumford - criação de novas cidades com auxílio estatal e ampla reconstrução de áreas - ficava no papel.

O PLANEJAMENTO NEW DEAL

(...)A TVA Tennessee Valley Authority,inegavelmente o mais importante empreendimento do planejamento New Deal,(...)

(...)a TVA tornou-se mais e mais uma secretaria geradora de energia elétrica,devotada à criação de uma base urbano-industrial:(...)Por volta de 1944,já era a segunda maior produtora de energia elétrica dos Estados Unidos,(...)A ironia está no motivo: o enorme aumento na demanda de energia proveniente da instalação do complexo de produção de plutônio do Conselho de Energia Atômica em Oak Ridge,base para produção da bomba atômica.(...)Norris,a nova cidade construída próxima à grande barragem do Tennessee,embora planejada por um membro da RPAA (Tracy Augur) e elogiada por Benton Mackaye,foi acuradamente descrita pelo Diretor de Planejamento da TVA como uma "agrovila".

A VISÃO FAZ-SE REALIDADE: LONDRES

Assim,o verdadeiro impacto de Mumford, Stein, Chase e Mackaye não se faria sentir em seu próprio país,nada simpático às idéias deles,mas nas capitais da Europa.(...)umpequeno grupo de planejadores já estava aplicando idéias norte-americanas a uma grande variedade de contextos britânicos.

Um dos mais bem-sucedidos,ironicamente,foi a bête noire da RPAA.Durante os anos em que dirigiu o Plano Regional de Nova York,Thomas Adams continuara como sócio na atividade de planejamento exercida pela Adams,Thompson e Fry,que,entre 1924 e 1932,produziu oito dos doze exercícios desenvolvidos no campo emergente dos planos consultivos regionais para a periferia de Londres.(...)

Os quatro planos restantes nascem da sociedade entre Davidge,Abercrombie e Archibald.Leslie Patrick Abercrombie(1879-1957),(...)começando como arquiteto,converteu-se ao planejamento graças a uma bolsa de pesquisa instituída na Universidade de Liverpool pelo magnata do sabão William Hesketh Lever,que fundara Port Sunlight com o dinheiro ganho numa ação por difamação movida por ele contra um jornal.(...)Mesmo antes da Primeira Grande Guerra ganhou um prêmio por seu plano urbanístico para Dublin que colocava o município dentro de seu contexto regional,patenteando,destarte,a dívida do autor para com Geddes.Em seguida,um exercício pioneiro em planejamento regional para a área de Doncaster,em 1920-1922 e,em 1925,para um plano para o leste de Kent: (...)Propôs oito pequenas novas cidades,situando cada uma delas numa dobra da ondulante paisagem calcária,dentro de um cinturão verde contínuo.(...)

Em 1927,Neville Chamberlain usou de sua posição como ministro da Saúde para incentivar o planejamento regional mediante a criação de um Comitê de Planejamento Regional para a Grande Londres,(...)Raymond Unwin foi escolhido para conselheiro técnico,(...)

Nesse ínterim,em importante palestra pronunciada em 1930,Unwin expunha seu conceito de planejamento regional: (...) "O principal objetivo do plano é assegurar a melhor distribuição das moradias,do trabalho e dos locais de recreio para a população.O método consistirá em executar essa distribuição segundo modelo adequado sobre um fundo preservado como área livre." (...)nada aconteceu; e em 1933,quando veio à tona,o relatório final do comitê foi definitivamente parar na geladeira,(...)E lá se foi ele para a América,preferindo passar os últimos anos de sua vida dizendo aos universitários de Colúmbia como planejar.

(...)Neville Chamberlain,ao tornar-se primeiro-ministro,criara,num de seus primeiros passos,a Comissão Barlow
pág. 29 (clique para voltar aos títulos)
Apontado para integrá-la,Patrick Abercrombie foi cuidadosamente encaminhado por Frederic Osborn (...)Abercrombie colaborara com Forshaw,o arquiteto-chefe do Conselho do Condado de Londres,no Plano do Condado de Londres.(...)

Assim, "guiada por conselheiros trabalhistas classe média,totalmente alheios aos anseios populares mas [...] temerosos de uma queda no valor da tributação ou perda do seu eleitorado de cortiço",Londres viveria o que Osborn chamou de descentralização "simbólica",ou seja,restrita a pouco mais de um milhão de pessoas.

Osborn,evidentemente,não estava sendo nada justo; (...)o Plano do Condado ostenta qualidades excepcionais que por si só bastariam para recomendá-lo junto ao mais purista dos membros da RPAA.Primeiramente,temos sua insistência nos métodos de levantamento geddesiano,(...)Em seguida,temos sua brilhante combinação do princípio da unidade de vizinhança,de Perry,com a hierarquia viária de Stein e Wright(...)

O Plano do Condado usou o novo sistema viário especificamente para criar uma Londres celular: a nova ordem tinha de ser implicitamente orgânica.(...)O importante é que,ao passar do Plano do Condado para o Plano da Grande Londres,Abercrombie retém a mesma estrutura orgânica.(...)

Do total de 1.033.000 pessoas que teriam que achar novas moradias em decorrência da reconstrução e reurbanização de Londres,apenas 125.000 mudariam para além do cinturão verde; 644.000 iriam para o anel periférico rural(383.000 para novas cidades,261.000 para prolongamentos das existentes),quase 164.000 ficariam junto ao contorno externo desse anel,mas a 50 milhas de Londres,e 100.000 mais longe ainda.Haveria oito novas cidades,com uma população máxima de 60.000 pessoas,situadas entre 20 e 35 milhas,aproximadamente,do centro de Londres.(...)

(...)a Lei das Novas Cidades recebia a Aprovação Real no verão de 1946,todas as oito novas cidades de Abercrombie tiveram sua localização fixada em 1949(...) a região de Londres é um dos poucos lugares do mundo onde se pode encontrar,concretizada,a visão do mundo segundo Howard-Geddes-Mumford.

6. A Cidade dos Monumentos. O Movimento City Beautiful: Chicago, Nova Delhi, Berlim, Moscou (1900-1945 )

BURNHAM E O MOVIMENTO CITY BEAUTIFUL NA AMÉRICA

Daniel Hudson Burnham (1846-1912), sócio na atividade arquitetônica da Burnham and Root de Chicago, autor do projeto de vários dos primeiros clássicos arranha-céus daquela cidade durante as décadas de 1880 e 1890, e chefe de obras da Exposição Mundial Colombiana, uma das feiras mundiais definitivas de todos os tempos, aí realizada em 1893. (...) constituiu um dos dois grandes estímulos que levaram o jovem arquiteto a transformar-se no planejador que viria a ser na maturidade. O outro lhe veio da experiência de projetar a mágica White City, às margens do Lago Michigan (...)

Henry Morgenthau, figura de banqueiro e grande proprietário, deixou bastante claro numa conferência de 1909: o objetivo primordial do planejador era eliminar os focos geradores de "doenças, depravação moral, descontentamento e socialismo". E em parte alguma isso foi tão verdadeiro quanto em Chicago, cenário, na década de 1880, das terríveis desordens que terminaram com a execução dos cabeças da revolta numa atmosfera de tensão quase insurrecional.

O Plano de Chicago de 1909 foi de fato a mais importante obra de Burnham. (...) O primeiro triunfo, foi a reconstrução do Passeio Público, o Mall, em Washington DC, que teve início em 1901. Em seu plano de 1791, L’Enfant pretendera, seguindo as idéias originais de George Washington, fazer ali um grande parque, de 400 pés de largura e mais de uma milha de comprimento, do Capitólio ao Potomac (...) Logo após,Burnham assumia a direção de uma comissão tripartite, tendo como companheiros Frederick Law Olmsted Junior e o arquiteto nova-iorquino Charles McKim; mais tarde, juntou-se a eles um escultor, Augustus St. Gaudens. (...)

O resultado foi a volta ao conceito original de L’Enfant,mas ampliado,com um passeio de largura duplicada para 800 pés,e quase o dobro do comprimento inicial,para abranger as planícies agora enxutas do Potomac,(...)

Cleveland,cidade às margens de um lago,no Estado de Ohio,lugar dominado pelo industrialismo em ascensão descontrolada,atormentado pela poluição,pela agitação operária e pela violência.Burnham foi escolhido para chefiar uma comissão de 1902; o relatório recomendava a construção de um novo centro cívico,(...)

Para San Francisco,em 1905,Burnham propôs algo muito mais grandioso,um novo complexo de centro cívico (...)o projeto acabou sucumbindo às pressões comerciais;(...)

"A tarefa realizada por Haussmann em Paris corresponde ao trabalho que precisa ser feito em Chicago"(...)a City Beautiful de Napoleão demonstrara ter sido um bom investimento.(...)

Chegou mesmo a argumentar que o "investimento"de Péricles na antiga Atenas ainda dava retorno sob forma de taxas turísticas.(...)

"A lagoa terá suas duas margens ornamentadas com árvores e arbustos adaptados ao nosso clima,em especial os que dão flores - a macieira,a pereira,o pessegueiro,o castanheiro,a castanheira brava,a catalpa,a macieira silvestre,o lilás,a acácia,o corniso.Os dias de maio e junho serão,assim,um verdadeiro festival aquático.(...)
pág. 30 (clique para voltar aos títulos)
Vemos céleres correrem as canoas impulsionadas por brônzeos atletas.(...)Cai a noite,com miríades de luzes coloridas a cintilarem pelo ar perfumado de nenúfares,e a Natureza nos acolhe em seus braços,crianças felizes"

Quadro extraordinário esse,quadro poético,um dos pouquíssimos na história do urbanismo.E as obsessivas aguadas pastel de Jules Guerin,que mostram a grande cidade vista de cima,com os bulevares irradiantes a se distanciarem rumo ao interior das vastas pradarias de Illinois,(...)

Lewis Mumford verberava o esquema Burnham como "cosmético municipal"; mais tarde,iria comparar os resultados com os exercícios urbanísticos de regimes totalitários.(...)

Como disse Mel Scott, "a Chicago do Plano Burnham é a cidade do passado que a América jamais conheceu", uma cidade aristocrática para príncipes mercadores.

O CITY BEAUTIFUL SOB O RAJ BRITÂNICO

Em seu Durbar de Coroação em 1911, Jorge V anunciava solenemente que a capital da Índia Britânica seria transferida de Calcutá para Delhi: local adequado por sua posição central, de fácil acesso e clima salubre, (...)
Os arquitetos-planejadores escolhidos (...) Herbert Baker (1862-1946) cedo se proclamara o arquiteto do imperialismo, evoluindo da estação ferroviária de Pretória para os edifícios governamentais da União Sul-Africana: suas idéias sobre arquitetura eram "nacionalistas e imperialistas, simbólicas e rituais". O vice-rei da Índia, Hardinge, queria-o para Nova Delhi mas - pressionado por Londres - escolheu Edwin Lutyens (1862-1944), então mais conhecido como arquiteto para casas de campo; Lutyens, pediu que Baker fosse indicado como seu colaborador. (...) O comitê de arquitetura e planejamento havia recomendado esse sítio ao sul da cidade indiana, conhecido como Raisina, (...) Mais tarde, Baker concluía que suas naturezas eram demasiado diferentes: Lutyens era o geômetra abstrato, isento de humanas preocupações; Baker estava mais interessado no "sentimento nacional e humano" (...) Dentro dos reticulados hexagonais, as casas foram distribuídas segundo uma fórmula desconcertantemente complicada de raça, nível profissional e status socioeconômico (...)

CAMBERRA: O EXCEPCIONAL EM CITY BEAUTIFUL

O novo governo da Commonwealth da Austrália,instaurado no Dia do Ano Novo de 1901,começou a cumprir sua promessa de achar uma nova capital dentro de Nova Gales do Sul,num raio de cem milhas fora de Sidney.Em 1908,escolheu Camberra,ficando o local reservado como Território da Capital Australiana: em 1911,(...)

Walter Burley Griffin (1876-1937),um norte-americano que trabalhara no escritório de Frank Lloyd Wright,participou com sua mulher,Mary Mahoney,e venceu.(...)

Com a mudança de governo,em 1913,Griffin foi nomeado Diretor de Projeto e Construção da Capital Federal. Durante sete anos quase enlouqueceu,vendo suas tentativas serem sistematicamen