INDIGESTO CONSUMO
Um breve relato ilustrado sobre o desgaste desanimador que
vem acontecendo na arquitetura
Ilustrações: Libero Malavoglia
Fotos: Mauro Holanga
Ah:
Nãããooo! Corta! Corta! Não é
nada disso! Voces não entenderam nada!
Vocês acabaram de presenciar a visão romântica
da indignação. Mas eu não sou nada romântico,
talvez seja um imbecil que junto com minha tchurminha de ideólogos
e puristas da forma/função (eu disse puristas e não
puritanos, certo?) insistimos em manter um mínimo de dignidade
nessa pró-fissão nuclear, cósmica, cada vez
mais atomizada em que, erroneanente a nosso ver, surgem os "especialistas"
(mas podem nos chamar de picaretinhas) do tipo: Fulaninho Tchans
do Rio de Janeiro é o máximo em lojas, já fez
mais de vinte: só no eixo Ipanema-Jardins!
E lá vai a dondoca toda afoita ligar pro perpetrador de niilismos
que, como num passe de mágica, revoluciona tudo!
E tome piso de granilite, tijolo de vidro, caixilho de ferro preto
com vidro aramado e "passe-partout" a entrada com
um portal bem alto e por vezes ladeada de colunas de inspiração
post-modern (é em inglês mesmo) pois seria pedir
demais de Beltraninho Tchans que ele ao menos pudesse distinguir
Novarquitetura Brasileira, – ou seja, arquitetura e arquitetos
brasileiros contestando os valores arquitetônicos das gerações
anteriores e arredondadamente apelidados de pós-modernos
– de arquitetura e arquitetos americanos contestando os valores
arquitetônicos das suas gerações anteriores,
pois todo artista ou intelectual transformador sabe que ser universalista
pressupõe o mergulho nos alicerces de sua própria
cultura, para não falar em raízes culturais (que lembra
cordel, forró, nordeste da peste, etc.). Mas isto é
outro papo e Sicraninho Tchans está muito ocupado
com suas pronta-entrega (a cliente não quer mais granilite
no piso, e agora? o que fazer meu Deus?) e ele precisa estar atualizado
e isso lhe toma um tempão. Já imaginou o trabalho
que dá folhear todas essas revistas importadas de decoração?
Mas deixemos os meninos do Rio pra lá, afinal, eles não
sabem o que fazem.
Breve
Histórico
Tudo começou
nos anos 60 num 31 de março ou 1 de abril, vocês lembram?
Beatles, rock and roll, cabelo comprido
Bossa Nova, carcará, Pega Mata e Come
Jovem Guarda, Deni & Dino, Corujaaa
Doi-Codi , esquadrão da morte, chame o ladrão! chame
o ladrão!
E
aconteceu o milagre, aliás aconteceram dois. O primeiro a
gente está curtindo até hoje. O segundo foi num belo
dia em que acordei nos meus cabeludos 18 anos no Jardim Paulista
e quando abri a porta do porão onde morava, qual não
foi meu espanto e perplexidade ao avistar do outro lado da rua com
estes olhos que a terra há de comer:
O primeiro
edifício colonial - neoclássico - mediterrâneo
de vinte andares!
Era
uma antevisão que eu estava tendo, o tal do Lindolfo Camamberg
era na realidade um gênio, precursor vinte anos à frente
de sua época do estilo Post-Modern que os oportunistas
dos americanos (remember the Wright Brothers) Moore, Jencks,
Venturi e Philliph Johnson, viriam a imitar, impune e descaradamente,
tal qual está ocorrendo também com a Bossa Nova, atual
New Bossa ou New Jazz e os sucedâneos ingleses pirateando
os nossos barquinhos, cantinhos e violõezinhos.
E tudo isso nos faz lembrar os velhos tempos do Pasquim com a coluna
Ping-Pong, onde o Ping era um trabalho gráfico ou cartoon,
geralmente estrangeiro, e o Pong a corruptela nacional do preguiçoso
que tinha mania de fazer "pesquisa" em livro raro, antigo
ou importado, sempre se esquecendo de dar o devido crédito
ao falecido ou desconhecido autor.
E na arquitetura atual, mais notadamente na de interiores, que tem
um tempo de vida útil menor, o Pong impera.
Outro aspecto que passa desapercebido para o leigo, mas é
gritante para o profissional sério (não sisudo) é
a incapacidade de resolver a "arquitetura exterior" (pardon
Corbusier), uma vez que, geralmente, as pronta-entrega, lojas e
apartamentos são reforminhas, e o especialista jeitoso pós-moderninho
ou o new-nada, mais conhecido como o Pong da Mário Ferraz,
tenta ser clean (servil tradução para o inglês
de limpo, ou seja, arquitetura de síntese, de caráter
cerebral numa linha próxima em artes plásticas da
Minimal Art ou, recuando no tempo, do Suprematismo Russo
ou, voltando ao Brasil, nas maquetes do Oiticica ou ainda, em linguagem
de botequim, "um troço difícil pra chuchu e a
bichona (logo quem?) não vai se meter a balão de sacar
esse lance todo, falô!".
Entonces, faz uma produção rápida no qual o
trompe-l'oeil é o espaço todo. Um movelzinho antigo,
aqui e ali, pra "contestar a vanguarda" e posar de pluralista
aos olhos dos new-nothing (êpa, esses ingleses são
terríveis!).
Por dentro Less is Nothing , por fora ajeita e adapta como
puder vigas e pilares (aumenta ou não o frontão? Ora
bolas) e chegamos ao subnitrato de pó de modernismo (Volta
Artigas, Nós te perdoamos!)
E pensar que nenhum jornal da maior cidade do cone sul tem, sequer,
uma página semanal dedicada à mais abrangente das
artes, exatamente neste período histórico em que a
arquitetura se propõe à rediscussão de seu
ideário em todo o mundo e, peculiarmente, no Brasil, esse
amontoado de contradições que tem, na sua arquitetura,
um dos raros motivos de gratificação cultural e artística.
Mas nem tudo está perdido meus amiguinhos, vocês por
certo irão me perguntar: Onde está a saída?
E eu lhes respondo: No fim do corredor, à esquerda, tem uma
porta vermelha, outra azul e mais outra amarela. Evite-as, pois
elas fazem parte do patrimônio cultural e intelectual do seu
autor que, oportunamente, fará novo pronunciamento no qual
em poucas palavras irá finalmente nos dizer:
O QUE É ARQUITETURA!
Aguardem!
Pitanga
do Amparo
23/01/1986